(UNIFAMINAS/2024) CRÔNICA DA SEMANA: BEBER À SAÚDE
Há estudos que mostram que a satisfação com gole é um poderoso serviço contra o estresse
Deixamos passar de propósito. Ano passado apareceu um estudo médico dizendo que beber, mesmo moderadamente, faz mal à saúde. Escolhemos não acreditar que uma garrafa de vinho — logo ele, tão bem
falado — equivalia ao prejuízo de 10 cigarros. E que tequila pode aumentar o risco de um AVC, ao contrário
do que era especulado.
A pesquisa não livra nem as pessoas educadas, que bebem moderadamente — um litro de cerveja ou duas
tacinhas de vinho por semana bastariam para aumentar riscos. Mas nas letras miúdas, revela-se que ela foi
feita entre chineses, até porque o objetivo era entender por que os asiáticos fi cam tontos mais rapidamente.
Há estudos para tudo, com resultados feitos para agradar o freguês. Depende, acho, de quem fi nancia. […]
Na mesa do bar, chegamos à conclusão de que podem estar usando o mesmo truque de Moisés, que levou
a proibição divina de não comer carne de porco a seu povo; altamente perecível, o produto causava muitas
doenças. Na nossa teoria — sem comprovação científi ca e feita depois de alguns goles — o governo chinês
quer gente mais sóbria por lá.
Cerca de 2,3 bilhões de pessoas neste planeta redondo — e que no caso dos exageros gira muito mais rápido
— bebem álcool. Somos minoria e cercados de abstêmios ou, no mínimo, mentirosos. Tirando crianças
e adolescentes, sobram 5 bilhões de pessoas; 2,7 bilhões estão vigiando e regulando quem gosta de uma
pinguinha, de um licorzinho, do inocente Vermute, até do Biotônico Fontoura.
O Faixa, companheiro de bar, quase um fi lósofo do hedonismo, sustenta que esses estudos são perda de
tempo. A tese é que a bebida alcoólica no copo representa os louros do fi m da prova do dia a dia, o momento
em que todo o transtorno da vida é sorvido em goles de recompensa. […]
Na contramão dos chineses, há estudos que mostram que a satisfação com gole é um poderoso serviço
contra o estresse, que a Organização Mundial da Saúde ainda não reconhece como doença, mas que é a
causa de algumas delas. Hans Selye, canadense e um dos maiores especialistas da matéria, sustenta que
o estresse é o resultado de uma civilização criada pelo homem, que ele mesmo não consegue suportar. Um
trago ajuda. […]
Evitando os exageros, seguimos lendo e acreditando em Charles Bukowski: “Se acontece algo de ruim,
bebe-se para esquecer; se for algo de bom, bebe-se para celebrar; se não acontecer nada, bebe-se para
que algo aconteça”.
Disponível em: http://absk.2.vu/9. Acesso em: 10 set. 2023
A relação do título da crônica “Beber à saúde” com a crônica em si revela que o autor
A) defende o uso do álcool, já que não se pode viver sem ele.
B) condena o uso do álcool, pois há estudos que comprovam seus prejuízos à saúde.
C) mostra-se contra todos os estudos acerca do uso do álcool, já que nenhum é verdadeiro.
D) apresenta argumentos favoráveis ao uso do álcool, ao qual é adepto.
E) é favorável aos dados apresentados na pesquisa chinesa quanto ao uso do álcool.
RESOLUÇÃO:
título “Beber à saúde” já traz uma ideia de ironia, porque normalmente se espera que beber prejudique a saúde, mas o cronista constrói o texto com tom bem-humorado e opinativo para relativizar os estudos que condenam o álcool. Ao longo da crônica, ele demonstra descrença em relação a pesquisas que apontam prejuízos; ironiza os resultados científicos; menciona argumentos que associam a bebida ao prazer, alívio do estresse e celebração;
cita até Bukowski para reforçar essa visão simpática ao ato de beber.
Isso mostra que o autor não condena a bebida, mas sim apresenta argumentos favoráveis ao seu consumo, com tom leve e irônico.
Resp.: D
VEJA TAMBÉM:
– Questão resolvida envolvendo crônica de Machado de Assis, do Enem 2014-PPL
– Resolução da questão sobre reconhecimento de gênero textual, da UFMS-PASSE 2024
– Questão resolvida envolvendo Machado de Assis, da UCPel 2018
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