(UFMS – PASSE/2024) Solidariedade
(Ferreira Gullar)
Décio, poeta e filósofo radical, vive desde menino as contradições da condição humana. No quintal de sua casa, no Andaraí, observou uma turma de saúvas devastando uma planta. Com pena da planta, tratou de espantar as saúvas, mas com cuidado, para também não machucá-las. Pegava-as uma por uma e ia arrancando-as da pobre planta já bastante mutilada. Só que as saúvas eram muitas e não estavam dispostas a desistir de sua tarefa:
enquanto tirava esta, aquela subia pelo caule, outra decepava um talo, outra fugia carregando um pedaço de folha, e a que ele tirara antes já voltava à planta. Nervoso e já perdendo a paciência, Décio compreendeu que a única maneira de salvar a planta era matar as saúvas. Diante dessa constatação, desistiu: por que haveria de salvar uma vida e eliminar muitas outras? Abandonou a planta à sanha das saúvas que, com mais rapidez ainda,
a devastaram. É, pensou Décio, não tenho que intervir nesse processo natural, as saúvas também precisam de comer e, se não comerem plantas, morrerão de fome. Esse incidente contribuiu para mostrar-lhe a dura realidade da vida: um comendo o outro.
Mas isso não o tornou menos solidário com as pessoas e os seres que necessitam de ajuda. Ou seja, em lugar de fugir das contradições, Décio mergulha nelas, enfrenta-as como um Quixote, e sofre-lhes as consequências. Assim é que, numa viagem de ônibus do Rio para São Paulo, sentado no último banco, suportou sem reclamar a companhia de um bêbado que ora roncava, ora jogava-se sobre seu ombro, ora caía em seu colo e terminou por
vomitá-lo todo. Finda a viagem, Décio, preocupado com seu incômodo companheiro de viagem, desceu
com ele do ônibus, perguntou-lhe o endereço e o pôs atenciosamente num táxi.
(…)
(GULLAR, Ferreira. Crônicas para jovens / seleção, prefácio e notas bibliográficas Antonieta Cunha. – 1ª ed. – São Paulo: Global, 2011.)
O texto “Solidariedade”, de Ferreira Gullar, narra as ações de Décio, uma pessoa que demonstra certa sensibilidade em relação à vida e aos dilemas que ela impõe. Considerando o gênero textual, essa narrativa é melhor classificada como:
A) poema.
B) carta.
C) crônica.
D) notícia.
E) entrevista.
RESOLUÇÃO:
O texto é um exemplo de crônica. A dica mais direta encontra-se no rodapé do texto (a referência bibliográfica). O livro de onde o texto foi extraído chama-se explicitamente:
(GULLAR, Ferreira. Crônicas para jovens / seleção, prefácio e notas bibliográficas Antonieta Cunha. – 1ª ed. – São Paulo: Global, 2011.)
Algumas características de crônicas, que aparecem no texto:
Narrativa Curta: O texto é breve e conciso.
Temas do Cotidiano: A história parte de situações banais e comuns do dia a dia (observar formigas no quintal, uma viagem de ônibus) para desenvolver o enredo.
Reflexão: O autor usa esses eventos triviais para fazer uma reflexão mais profunda ou filosófica sobre a condição humana, a solidariedade e as contradições da vida.
Linguagem: Apresenta uma linguagem leve, próxima do coloquial e da oralidade, típica deste gênero que transita entre o jornalismo e a literatura.
Resp.: C
VEJA TAMBÉM:
– Questão resolvida sobre cordel, da Unifaminas 2022
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